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Judas, o Lado B

E declarou: “Pequei, pois traí sangue inocente”. Mas eles alegaram: “O que temos a ver com isso? Esta é tua questão!”
    Mateus 27:4

Jeff Loveness assina o guião da nova mini-série da BOOM! Studios, Judas. O argumentista, com uma carreira que se estende da Marvel Comics ao night show Jimmy Kimmel Live, construíu uma viagem em torno do que sucede ao apóstolo de pior reputação depois da sua morte. No Novo Testamento, o destino e propósitos de Judas formam um dos mais famosos pontos de incoerência entre os vários livros da Bíblia. É nessa mesma ramificação que Loveness descobre espaço para visitar a personagem no mundo dos vivos e no dos mortos. Tratando-o como uma figura trágica, vítima de maquinações inevitáveis, a série explora o conceito de que Judas é, com Jesus, uma de duas personagens sacrificadas, os louros cabendo apenas ao herói oficial da história.
Loveness, educado num ambiente Protestante “muito religioso”, chama à sua interpretação o “Lado-B” da famosa história de traição e arrependimento.
Com o tempo, alguns leitores encontrarão possíveis paralelos com o recente Hellboy in Hell de Mike Mignola. Tal como Judas, esta obra descreve um percurso de perfil dantesco por paisagens infernais por parte de uma personagem que desafia categorizações de “bem” e “mal”. O apóstolo maldito sacrificou-se pela fé, e o demónio vermelho germina lírios brancos quando sangra e, fruto da educação que teve, cresceu um bom rapaz. Ambas as histórias encontram parte da sua origem no poder que a iconografia religiosa teve na infância dos seus criadores.

Uma nota final em relação a este novo livro da BOOM! – a escolha de Jakub Rebelka para o ilustrar é um exemplo perfeito do quão o mercado americano tem a ganhar com colaborações com artistas com estilos marcadamente próprios. Rebelka, que desenhou recentemente um dos capítulos de Spera II, de Josh Tierney, é uma das vozes mais interessantes dos comics actuais. Nas suas mãos, Judas é como um teatro de marionetes amaldiçoadas, esculpido por Alberto Breccia.

Capa alternativa de Jeremy Bastian (Cursed Pirate Girl, Mouse Guard: Legends of the Guard)

Todos os direitos © BOOM! Studios

15 Dezembro
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Com Miles Morales, o Spider-Verse chega ao grande ecrã

O super-herói afro-latino, criado em 2011 por Brian Michael Bendis e Sara Pichelli para o universo Ultimate Marvel, junta-se ao Marvel Cinematic Universe com Spider-Man: Into the Spider-Verse.
O projecto será a primeira produção animada do MCU a ser distribuída nos cinemas e a produção cabe à Sony Pictures Animation.
O estúdio californiano, famoso por congregar talentos de topo da indústria, como o realizador Genndy Tartakovsky, tem sido, ainda assim, amplamente criticado por resultados irregulares e sem voz própria definida.
O novo trailer de Spider-Man: Into the Spider-Verse pode abalar essa imagem com a sua estética arrojada e uma ênfase clara em acção e não comédia, uma fórmula atípica no panorama animado das grandes produções americanas.
Esta opção assinala a nova produção como parte integrante, e não um spin-off periférico, do espírito do MCU. Os fãs de animação cansados das estéticas que dominam o mainstream da animação americana (cabelo mais realista?) encontrarão razões para espreitar esta aventura, marcada por uma abordagem gráfica com fortes elementos 2d.
A produção executiva cabe a Phil Lord e Chris Miller, com Lord como argumentista.
A dupla, aclamada pelo seu trabalho em The Lego Movie, esteve associada a Solo: A Star Wars Story, até ao Verão passado.
Spider-Man: Into the Spider-Verse fora anunciado em Janeiro deste ano pela Sony e tem agora estreia agendada nos E.U.A. para 14 de Dezembro de 2018.

14 Dezembro
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QuemPorquêQuandoComo: Jorge Coelho

Nome:

Jorge Coelho

De onde és? Quantos anos tens?

Eu sou de Lisboa, Portugal, colheita de 77 …

Como é que a zona onde cresceste influenciou os teus gostos / trabalho?

Muito, sou uma criança suburbana que viveu profundamente a década de 90, morava numa cidade multicultural com muitas pessoas de diferentes partes do país e do mundo também. Éramos na maior parte, miúdos de classe média baixa, não havia internet,  então nós encontravamo-nos ao vivo, e íamos inventando o que fazer, improvisando jogos e encontrando maneiras de manter os nossos interesses, a BD era e ainda é uma das principais maneiras de escapar para a fantasia …

BDs favoritas, filme, livro, programa de televisão, banda, enquanto crescias?

Batman Year One, Pulp Fiction, The Art of War, The Twilight Zone / Star Trek, The Smashing Pumpkins …

Criadores favoritos e seu impacto no teu trabalho?

Nos anos de desenvolvimento, Frank Miller, John Byrne, Mike Mignola, Arthur Adams e Michael Golden. Agora é principalmente Sean Murphy.

Quando é que é começaste a pensar que fazer BD poderia vir a ser o teu emprego?

Quando entrei! Antes era muito difícil manter a fé, eu já era um Ilustrador por isso já estava feliz com o que era. Mas a um nível mais profundo, sonhava tornar-me um artista de BD desde os quatro anos de idade, antes de saber escrever ou ler…

Como foi o caminho para lá chegar?

Sinuoso, divertido e imprevisível. Cheio de experiências criativas e com um esforço de equipa, também, porque era (e ainda sou) parte do The Lisbon Studio onde ajuda e análise mútuas estiveram lá sempre para mim.

Como é o teu dia de trabalho?

Acordar, banho ou ginásio, comer alguma coisa leve, beber café, metro, estúdio, trabalho, almoço, trabalho, metro, casa e relaxar… quando estou a lidar com um prazo substituir relaxar com as páginas mais urgentes…

Ferramentas do ofício?

Pigmento! Tinta da China sempre, com um papel decente, aparos Deleter Maru e pincel Windsor & Newton Series 7 tamanho 3, caneta Posca branca, caneta correctora UHU, réguas e moldes de elipses.

Melhores/piores partes do trabalho?

Artes-finais e conceber as composições (layouts). A pior, os prazos, porque queres sempre fazer melhor.

Quebras criativas, tens? Como é que as superas?

Tenho sempre micro quebras criativas durante a fase dos layouts… é nessa fase que tenho todas as minhas dúvidas e bloqueios mais importantes e a partir daí que a narrativa tem de fluir bem.

Vida social? É possível ter uma?

Sim, mas principalmente entre números e aceitar novos projectos.

Convenções de comics? Sim ou não?

Sim, é o local para encontrar e comunicar directamente com os leitores, que são os nossos patrões.

Projecto favorito?

John Flood.

Projecto de sonho?

Sandman COM o Neil Gaiman.

Opiniões sobre o estado actual do meio?

Falta de respeito/educação da parte de grupos politicamente motivados para com escritores e artistas, a par de variedade e qualidade incríveis em diferentes trabalhos a serem feitos neste momento.

Não necessariamente alinhados com as vendas. Surreal, é o que acho.

Projectos de autor versus projectos encomendados?

Ambos! Há virtudes em ambos.

Jorge Coelho,  ilustrador/ cartoonista, actualmente desenha para o mercado norte americano em editoras como a Marvel (Rocket Raccoon, Haunted Mansion, Loki Agent of Asgard, Agent Venom), BOOM! Studios (John Flood, Sleepy Hollow, Polarity) e Image Comics (Zero).

Twitter: @JCoelhoPT

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03 Dezembro
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ESCRITA AO QUADRADO: Tom King

“Os escritores são nada.”

Esta é a ideia que está na base desta coluna sobre escrita para BD, mas permitam-me que a clarifique: os escritores, sejam eles desenhadores do próprio material, ou guionistas que passam a outros as suas ideias, começam sempre do zero, de um abstracto que não existe. De um “nada”, que acaba por se tornar em alguma coisa, moldado pelas ideias, pelos conceitos e que ultimamente termina numa história, em desenhos, cor, arte final, legendagem, e todos os passos do processo pelo qual um nada passa a ser um “todo artístico”.

O escritor vive nessa angústia da ausência de referências para dar início ao processo, vivendo, respirando e sendo… nada, até que o tornem em algo mais.

Esta “Escrita ao quadrado” visa precisamente fazer uma ligação entre a nona arte e o processo de escrita que lhe está apenso, seja através de ensaios, críticas, análises de estilos, biografias ou meramente ao contar episódios famosos da história da escrita para BD.

E porque há que começar em algum lado, aproveito esta oportunidade para falar daquele que julgo ser neste momento o mais competente escriba da indústria de comics contemporânea, nomeadamente TOM KING.

À imagem de um bom e moderno artigo digital que se preze, apresento cinco pontos principais que defendem esta minha opinião, prometendo que nenhum deles é clickbait…

1- A FORMAÇÃO

Criado por uma mãe que trabalhava na indústria cinematográfica, Tom King cresceu rodeado de histórias e narrativas, algo que usou e aprofundou quando estudou Filosofia e História na Universidade de Columbia.

Recém-formado, cumpriria estágio nos departamentos editoriais da DC COMICS e da MARVEL, onde trabalharia como assistente pessoal do famoso argumentista CHRIS CLAREMONT.

Todavia, após o 11 de Setembro, tomaria a decisão de ingressar na divisão de contra terrorismo da CIA, na qual operaria durante 7 anos, experiência marcante que decide abandonar após se tornar pai, enveredando por uma carreira na escrita de romances e comics.

2- A DIVERSIDADE

Tendo dado nas vistas com “A Once Crowded Sky”, romance ilustrado com algumas páginas de BD, King é então convidado pela DC para co-escrever o título “GRAYSON” em parceria com TIM SEELEY, sobre as aventuras de um Dick Grayson recém-recrutado para uma força de espiões internacional, tema que assentava como uma luva ao escritor.

Porém, rapidamente escapa ao nicho temático, começando a escrever a Maxi-Série “OMEGA MEN” sobre uma força de rebeldes em combate com um império galáctico opressivo.

Curiosamente no mesmo ano de 2015, lança através do selo editorial VERTIGO para leitores adultos, a série de crime “SHERIFF OF BABYLON”, talvez a mais inspirada na sua vida profissional anterior, ou não retratasse perfeitamente os meandros da corrupção, crime e abusos da ocupação militar americana do Iraque.

Numa nova oportunidade, Tom King assina então pela MARVEL a Maxi-Série “VISION”, sobre o androide robótico dos Avengers, num estilo adulto, perturbador e reminiscente dos trabalhos de Phillip K Dick, ou não retratasse a criação de uma família sintética por parte do herói, numa busca do que constitui afinal “estar vivo”.

A atenção e a profusão de estilos, valeria a King um contrato exclusivo com a DC COMICS em 2016, onde não só pegaria no legado de SCOTT SNYDER para dar corpo ao título “BATMAN” após o propositadamente apelidado “REBIRTH” da sua linha de super-heróis, para a qual escreve ainda o livro, após quase dois anos. A juntar a isso, desenvolve o seu novo trabalho, uma homenagem ao estilo desbragado e febril de acção e conceitos de JACK KIRBY, no delirante “MISTER MIRACLE”.

3- DOMÍNIO DA LINGUAGEM DA BD

Muitas vezes usando grelhas base de 9 painéis, um pouco à imagem de “WATCHMEN”, em títulos como “OMEGA MEN”, “VISION” ou “MISTER MIRACLE”, TOM KING assume como poucos a compreensão do domínio dos tempos da narrativa de painel para painel, repetindo por vezes acções das personagens ou painéis silenciosos, para controlar o leitor e a sua compreensão e avanço da história. De facto, o escritor preconiza como poucos o chamado “contrato” narrativo com o leitor, deixando que este preencha o tempo de cada quadro e cada prancha com a mente, ligando as palavras e as imagens e completando o tempo e os acontecimentos entre estas, numa experiência por vezes cinematográfica e narrativa ímpar.

4- O PRIMADO DA ACÇÃO, SERVIDA POR DIÁLOGOS NÃO EXPOSITIVOS

Apesar de dominar o uso de uma redondilha curiosa de diálogos onde abundam repetições, interjeições e locuções adverbiais constantes, a principal característica da escrita de King passa por deixar muitas das vezes que seja a arte e a acção inerente a contar a história, usando os diálogos sobretudo para demarcar as personagens, as suas intenções e características, evitando apenas passar informação expositiva. Talvez por isso mesmo, abundam na sua obra os painéis silenciosos em muitas das suas obras.

5- OS COLABORADORES

E porque a BD é sobretudo uma arte visual, Tom teve a sorte de se rodear de alguns dos mais inovadores jovens talentos gráficos da indústria de comics, que não só entendem o primado das suas indicações, como se sentem à vontade para criar estilos próprios, no que se pretende ser sempre uma sinergia criativa que beneficie e inspire ambos os lados. Assim, nomes como MIKEL JANIN, MITCH GERADS, GABRIEL HERNÁNDEZ WALTA, DAVID FINCH ou LEE WEEKS têm sido algumas das suas principais parcerias, realizando trabalhos que cada vez mais granjeiam do apreço da crítica e do público, catapultando o nome de TOM KING como um dos indiscutíveis novos génios da escrita de comics da actualidade.

NUNO DUARTE

escritor e guionista de BD, TV, Teatro, Multimédia e cassete pirata assina esta coluna, negando-se a adoptar o acordo ortográfico e recomendando a toda a gente que leia o especial “BATMAN/ELMER FUDD” de TOM KING e LEE WEEKS, como um dos crossovers mais estranhos, belos e significativos dos últimos anos dos comics.

03 Dezembro
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As muitas mentes de Jamie Hewlett

Após ‘The Suggestionists’ a sua exposição triunfal na Saatchi Gallery em 2015, os fãs do multifacetado Jamie Hewlett ouviram o que há muito esperavam – era anunciada a preparação de um livro com o best-of da sua carreira. Há muito que o culto à volta do desenhador e designer inglês clamava por uma edição substancial dos seus diferentes projectos. A co-criação dos Gorillaz com o igualmente versátil Damon Albarn fez a sua popularidade transcender em muito a já adquirida com a sua icónica Tank Girl.
A publicação, em 2006, de ‘Rise of the Ogre’, respondera à vontade do público de saber mais sobre a banda virtual mas, contendo poucas imagens inéditas, não satisfez o coro crescente de fãs de Hewlett.
Esta nova monografia demorou um ano a mais do que o previsto a ser fechada mas o resultado é impressionante.

A edição multilíngue de “Inside the Mind of Jamie Hewlett” foi editada por Julius Wiedemann, um dos mais prestigiados nomes da editora Taschen, e cobre duas décadas de trabalho revolucionário, contendo mais de 400 trabalhos. Junto aos universos punk-pop pós-apocalípticos dos fenómenos Gorillaz e Tank Girl, surgem esboços, pósteres, B.D. e ilustrações de outros projectos. A extravagante produção da ópera ‘Monkey: Journey to the West’ concebida com o velho colaborador Albarn e dirigida por Chen Shi-Zheng merece aqui o seu próprio capítulo.

Cartas de tarot, inspiradas por Jodorowsky.

A 7 de Dezembro, o artista estará a assinar cópias deste clássico instantâneo na loja oficial da Taschen em Londres.
ISBN 978-3-8365-6093-1

p.s.: o artista está a produzir uma série de animação dos Gorillaz que deverá surgir em 2018

02 Dezembro
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Akira – 35 anos de revolução

Algures, há um altar ao movimento cyber punk que está prestes a ficar completo. A editora Kodansha, que de 1982 a 1990 publicou Akira, a seminal mangá de Katsuhiro Otomo, criou uma caixa com a saga completa em seis volumes em capa dura. Pela primeira vez, uma tradução das 2000 páginas em inglês estará estructurada no sentido de leitura japonês, da direita para a esquerda. Para celebrar o 35º aniversário da obra, a editora de Tóquio juntou ao lote uma nova edição do famoso art book Akira Club bem como um remendo bordado com a pílula que serve de insígnia urbana ao protagonista Kaneda.

Em 1988, o mesmo ano em que chegou aos cinemas japoneses a super influente versão em anime, realizada pelo próprio Otomo, começou a ser publicada a tradução colorida americana. A Marvel Comics, tendo adquirido os direitos de publicação nos EUA, produziu-a através da Epic, a sua chancela para títulos mais alternativos ao mainstream americano. Para o efeito, Otomo escolheu o famoso colorista Steve Oliff, que trabalhou todas as cores por computador, implementando na realidade aquela que se tornaria a revolução digital dos comics na década de 90.

Contudo, esta é uma edição para o purista, que lê Gibson, Dick, Farmer, Sirius e Frauenfelder e que sabe qual, entre todas as versões de Blade Runner, é que é mesmo a de Ridley Scott. Por isso, a Kodansha reproduziu aqui meticulosamente as pranchas originais a preto-e-branco, um regresso ao vinil para quem não se contenta com o remaster a cores.

02 Dezembro
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